quarta-feira, 30 de junho de 2010
Aquisição de nacionalidade portuguesa quadruplica
Há quase cem mil novos portugueses desde que a Lei da Nacionalidade entrou em vigor, no final de 2006. Portugal está a bater todos os seus recordes. No ano passado, registou 45.293 pedidos - concedeu 40.245, quatro vezes mais do que em 2006.
"Era o que se esperava", reage Timóteo Macedo, da Associação Solidariedade Imigrante. "Andava todo o mundo a dizer que era preciso mudar esse lei para as pessoas terem mais direitos aqui dentro. A miopia política não deixava. Mudou-se a lei e está aí o resultado."
Depois da decisão tomada, a transformação não aconteceu de um momento para outro. A nova Lei da Nacionalidade foi aprovada a 15 de Fevereiro de 2006 e (depois de uns acertos) republicada a 17 de Abril. Tardou a ser regulamentada - só entrou em vigor a 15 de Dezembro de 2006.
Este regime jurídico encurtou o período de residência mínimo obrigatório e simplificou alguns procedimentos, recorda Martinho Romão, da Associação Cabo-Verdiana do Norte de Portugal. Ao aceitar prova oral de Português, por exemplo, abriu a porta a africanos analfabetos em Portugal há anos.
O peso das naturalizações é cada vez maior. No ano passado, o país somou 22.876. Em 2007, 38.864 solicitaram nacionalidade portuguesa, 16.205 conseguiram-na, 5115 por naturalização. Em 2008, 47.981 requereram e 37.218 obtiveram, 18.750 por naturalização.
Aqui, no pote das naturalizações, cabem os estrangeiros que residem legalmente em Portugal há pelo menos seis anos, que conhecem a língua e não foram condenados por crime punível com pena de prisão de três ou mais anos (segunda a lei portuguesa). Mas também os nascidos em Portugal que se encontram em situação ilegal e que não saíram do país nos últimos dez anos. E os netos de portugueses residentes no estrangeiro. E as pessoas que já tiveram nacionalidade portuguesa e que a perderam sem terem adquirido outra.
As outras aquisições de nacionalidade portuguesa concernem a algum tipo de laço, como o casamento, união de facto, filiação ou a adopção. Fora disto, existe a atribuição originária: a nascidos em Portugal sem outra nacionalidade ou com pelo menos um progenitor aqui residente há pelo menos cinco anos - ou aqui nascido e aqui residente. Os brasileiros lideram a lista. Seguem-se os cabo-verdianos, os angolanos, os moldavos e os guineenses.
Gustavo Behr, da Casa do Brasil, encara esta liderança com "naturalidade". Os brasileiros constituem a maior comunidade estrangeira residente em Portugal: 106.961, de acordo com os últimos números do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Behr lê neste desejo de serem (também) portugueses um sinal da sua crescente integração.
Há limites impostos ao residente estrangeiro. Martinho Romão cita alguns: "Por exemplo, não pode votar nas legislativas, nas presidenciais, nas europeias. Sendo um cidadão nacional, pode participar em qualquer eleição, pode candidatar-se aos serviços públicos, tem facilidade em circular na Europa, pode viajar até aos EUA sem muitos problemas."
E é por a nacionalidade ser apetecível que as autoridades estão atentas. No final do ano passado, o SEF deteve 14 pessoas por suspeita de fraude nos exames de Português: 12 examinados não eram os candidatos, apesar de se terem apresentado com os seus documentos.
Até 15 de Dezembro de 2006, os processos corriam no SEF. Desde então, despacham-se na Conservatória dos Registos Centrais, embora o SEF tenha de verificar os antecedentes e o período de residência legal. Para agilizar os processos, criou-se um sistema de comunicação electrónico, que eliminou a troca de papéis entre conservatórias.
Ainda falta acertar agulhas, diz Martinho: "Antes, o processo era mais discricionário. A nova lei define os requisitos, mas ainda nos deparamos com funcionários que fazem interpretações, ainda não há uniformidade de critérios." Diz-lhe a experiência alheia que a maior dor de cabeça pode ser obter o registo criminal, sobretudo se o candidato já viveu em diversos países. Tudo se agrava quando esses países viveram longas guerras. Só que aí, amiúde, outra dor de cabeça lateja: o registo de nascimento.
"Para ser cidadão, não basta ter o bilhete de identidade português", adverte Timóteo. "É preciso combater a discriminação - impulsionada pela origem, pela cor da pele. É preciso que o Governo ouça quem está no terreno, tome medidas para combater a pobreza e a exclusão social."
É "uma ilusão" que os imigrantes em Portugal cometam mais crimes que os portugueses

Estudo diz que criminalidade dos estrangeiros é igual à feita por portugueses. Brasileiros são trabalhadores, reage Casa do Brasil
Por Bárbara Wong, Público, 12.08.2008
Na noite do assalto à agência do Banco Espírito Santo, em Lisboa, são muitos os curiosos que esperam o desfecho da situação. No momento em que se ouvem tiros, um homem de calções e chinelos nos pés, grita em plenos pulmões: "Matem esses brazucas. Matem-nos a todos". Do outro lado da lona, que rodeia a entrada da agência, o resultado da operação de resgate é: um assaltante morto, outro gravemente ferido e a libertação dos dois reféns.
Na rua, na Internet, nos fóruns de opinião pública dos jornais, televisões e rádios, a nacionalidade dos assaltantes domina os comentários. Muitos são mensagens de ódio e racistas. É comum a associação entre criminalidade e imigração e acontecimentos como este assalto vêm reforçar essa tese. Mas será verdade que os estrangeiros são mais criminosos do que os nacionais? Um estudo, publicado em 2005, responde que não.
Os sociólogos Hugo Seabra e Tiago Santos, com base em dados de 2001, calcularam as taxas brutas de criminalidade, ou seja, o número de condenações por mil indivíduos, dos portugueses e dos estrangeiros, e concluíram que são exactamente iguais se tiver em conta o sexo (masculino), a idade e as condições perante o trabalho: 11 por mil. "A maior criminalidade dos estrangeiros face aos portugueses revela-se assim ilusória", concluem.
"Diariamente, há estrangeiros a ajudar o país a crescer e o que vende são as notícias sobre o envolvimento de estrangeiros na prática de crimes", critica Seabra, lamentando o modo como a comunicação social trata estes temas.
Para Ana Cruz, dirigente da associação SOS Racismo, "não é notícia os assaltantes serem brasileiros". Nos últimos meses, aumentou o número de assaltos e nunca se falou da nacionalidade dos assaltantes, senão agora, justifica. Mamadou Ba, dirigente da mesma associação, condena os fazedores de opinião que "estigmatizam as comunidades migrantes".
O investigador do Centro de Estudos Geográficos Jorge Macaísta Malheiros enumera três casos: o "arrastão", em 2005, quando foi noticiado que um grupo de meio milhar de rapazes de origem africana teria cometido roubos na praia de Carcavelos, facto que a PSP viria a negar um mês depois; o caso dos ciganos da Quinta da Fonte, no mês passado, e o assalto de quinta-feira.
Todos têm "coincidências interessantes": envolvem pessoas de minorias étnicas; passaram na televisão em directo e repetidamente; e aconteceram no Verão, altura em que há menos notícias, logo mais espaço para estes acontecimentos. "São fenómenos pontuais que ganham grande visibilidade" e que acabam por evidenciar "expressões encobertas de racismo", continua o investigador.
"Há atitudes xenófobas de pessoas que dizem ’Volta para a tua terra’, mas são fruto de sentimentos negativos e de frustração", testemunha Heliana Bibas, dirigente da Casa do Brasil. A comunidade não se revê no assalto, que Bibas classifica como um "caso isolado": "Um fenómeno negativo pode ter mais repercussão do que todas as questões positivas e benefícios que os brasileiros trazem para o país", lamenta.